Sustentabilidade na construção civil

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Parte 1

O desordenado crescimento da população mundial fez com que a demanda por bens e serviços aumentasse muito, instituindo uma sociedade de consumo e uma cultura de desperdício. Alem disso, com o avanço tecnológico dos últimos anos surgiram novos produtos, cujo uso indiscriminado trouxe a degradação dos recursos naturais.

A indústria da construção civil constitui-se em uma das principais fontes de degradação ambiental, com enorme geração e má deposição de resíduos das diferentes etapas do processo produtivo.

Consumo de Recursos Naturais e Energia

A indústria da construção civil é a maior consumidora dos recursos naturais do planeta. Esse alto consumo está relacionado com a grande quantidade de geração de resíduos de construção e demolição, com a vida útil das estruturas, a manutenção e reparos e as tecnologias utilizadas nas construções. Mesmo os recursos que são ditos renováveis não são corretamente utilizados, o que impede a sustentabilidade desses ecossistemas.

O setor da construção civil consome grandes quantidades de materiais com significativo conteúdo energético, que são transportados por grandes distancias. Cada vez mais busca-se a matéria-prima em distancias maiores devido a má utilização dos recursos que se encontram próximos ao mercado consumidor.

Desenvolvimento Sustentável

Desenvolvimento sustentável não é apenas uma bandeira de ecologistas e já se constituiu em uma preocupação real para a indústria da construção civil a nível internacional. As atividades relacionadas com a construção civil possuem enorme impacto ambiental. O setor é o maior consumidor individual de recursos naturais, gera poluição, etc.

Desenvolvimento sustentável pode ser definido como uma forma de desenvolvimento econômico que “emprega os recursos naturais e o meio ambiente não apenas em beneficio do presente, mas também das gerações futuras” (SJÖSTROM, 1996). Tornar as formas de desenvolvimento econômico sustentáveis deixou de ser uma bandeira de ecologistas sonhadores para ser um conceito importante na comunidade de nações. A certificação ambiental retratada na série normas ISO 14000 e que já está em implementação no Brasil é a parte mais visível desta mudança. O CIB (lnternational Council for Building Research and Documentation) colocou entre suas prioridades de pesquisa e desenvolvimento o desenvolvimento sustentável. A European Construction Industry Federation possui agenda específica para tema (INDUSTRY & ENVIRONMENT, 1996). A Civil Engineering Research Foundation (CERF) entidade dedicada a promover a modernização da construção civil dos Estados Unidos, realizou uma pesquisa entre 1500 construtores, projetistas e pesquisadores de todo o mundo (BERNSTEIN, 1996) visando detectar quais as tendências consideradas fundamentais para o futuro do setor. Nesta pesquisa a “questão ambiental” foi considerada a segunda mais importante tendência para o futuro.

A cadeia produtiva da construção civil apresenta importantes impactos ambientais e todas as etapas e qualquer sociedade seriamente preocupada com esta questão deve colocar o aperfeiçoamento da construção civil com prioridade. Em primeiro lugar, o enorme peso do macro-complexo da construção civil na economia, onde é responsável por 40% da formação bruta de capital e enorme massa de emprego fazem com que qualquer política abrangente deva necessariamente abranger o setor.

Em segundo lugar, o macro-complexo da construção civil é um das maiores consumidoras de matérias primas naturais. Estima-se que a construção civil consome algo entre 20 e 50% do total de recursos naturais consumidos pela sociedade (SJÖSTRÖM, 1996). O consumo de agregados, por exemplo, é imenso. Algumas reservas de matérias primas tem estoques bastante limitados. As reservas mundiais do cobre, por exemplo, tem vida útil estimada de pouco mais de 60 anos (INDUSTRY AND ENVIRONMENT, 1996). Em uma cidade como São Paulo o esgotamento das reservas próximas da capital faz com que a areia natural já é transportada de distâncias superiores a 100 km, implicando em enormes consumos de energia e geração de poluição.

O setor envolve processos intensivos em energia, geradores de poluição e, dada sua dispersão espacial, transporte à grandes distâncias. Cerca de 80 % energia utilizada na produção do edifício é consumida na produção e transporte materiais (INDUSTRY AND ENVIRONMENT, 1996).

A geração de partículas de poeira está presente em quase grande parte das atividades do macro-complexo, da extração da matéria prima, transporte, produção de materiais como cimento e concreto e a execução de atividades em canteiro. Adicionalmente a produção de cimento e cal envolve a calcinação do calcareo, lançando grandes quantidades de CO2 na atmosfera:

Isto é, para cada tonelada de cal virgem são produzidos 785 kg de CO2 ou mais de 590 kg de CO2 para uma tonelada de cal hidratada. Outros materiais utilizados pelo setor geram importantes resíduos, como a indústria siderúrgica e metalúrgica, cerâmica, etc. A fase de uso dos edifícios e outras construções também possuem impacto ambiental específico. Energia é consumida para iluminação e condicionamento ambiental. Estes consumos são, em grande medida, controlados por decisões de projeto. A manutenção, que durante a vida útil de um edifício vai consumir recursos em volume aproximadamente igual aos despendidos na fase de produção, também gera poluição (JOHN, 1988). A extensão e impacto ambiental destas atividades decidida ainda na fase de projeto.

Em terceiro lugar, a construção civil é potencialmente uma grande consumidora de resíduos provenientes de outras indústrias. O setor já é atualmente um grande reciclador de resíduos de outras indústrias. Resíduos como a escória granulada de alto forno e cinza volante são incorporados rotineiramente nas construções.

O impacto da demanda ambiental sobre a construção civil não pode ser subestimado. KILBERT (1995) propôs seis princípios:

1) Minimizar o consumo de recursos (Conservar)
2) Maximizar a reutilização de recursos (Reuso)
3) Usar recursos renováveis ou recicláveis (Renovar / Reciclar)
4) Proteger o meio ambiente (Proteção da Natureza)
5) Criar um ambiente saudável e não tóxico (Não tóxicos)
6) Buscar a qualidade na criação do ambiente construído (Qualidade)

A durabilidade deixa de ser aspecto importante apenas do ponto de vista econômico e passa a significar o tempo em que atividades que implicaram em determinado impacto ambiental cumprem sua função social (SJÖSTRÖM, 1996), minimizando o consumo de recursos. Neste contexto, a vida útil do edifício e suas partes são governadas não apenas pela taxa de degradação física dos seus componentes, mas também pela degradação social (JOHN, 1987) que deve ser controlada pela possibilidade readequação às mudanças nas necessidades dos usuários (JOHN, KRAAYENBRINK & VAN WAMELEN, 1996).

Independente do ponto de vista adotado, a “questão ambiental” deverá modificar todo o paradigma de desenvolvimento e avaliação de projetos.

A seleção de materiais deixará de ser feita com base apenas em critério estéticos, mecânicos e financeiros, mas estará condicionada a diferentes questões como contaminação do ar interno considerando as taxas de ventilação ambiental durabilidade no ambiente a que os mesmos serão expostos, de possíveis impactos ambientais da sua deposição e das possibilidades de reciclagem serão partes integrantes das atividades diárias dos engenheiros e arquitetos. DIMSON (l996) sintetiza os múltiplos impactos das políticas ambientais na construção civil afirmando que ela requer um aumento da produtividade de todos os recursos – humanos energéticos e materiais, abrangendo: Implantação do edifício, projeto e processo de construção, Seleção de materiais; Planejamento energético Gerenciamento de resíduos; Qualidade do ar; Projetar para flexibilidade. (John, V. M.)

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